Não me venhas
Com meios versos.
Quero um poema inteiro
Para ler num dia
Triste de Inverno.
Quanta poesia,
Dúbia, não li?
Quantos contos,
Ridículos, não guardei?
Ser poeta,
Toda prosa:
Emaranhados diversos.
Não sonhei?
L'ennemi
Voilà que j'ai touché l'automne des idées
Baudelaire
Baudelaire
mardi 15 novembre 2011
samedi 15 octobre 2011
Le goût du vin
Quebro a taça
Desperdiço o vinho
Depois de uma garrafa,
Qualquer moça
Vai se abrindo.
Solto o verbo
Deslizo a língua
Depois de uma cantada,
Qualquer moça
Vem sorrindo.
Dói a cabeça
Remói a consciência
Depois de uma noitada,
Qualquer moça
Sai de fininho.
lundi 26 septembre 2011
Memórias de uma guria viajante VII: Pesadelos
O lugar era arejado e confortável. As janelas eram grandes, tomavam toda a parede leste da sala, cobertas por persianas que, agora, estavam abertas. Podia avistar os prédios altos que circundavam aquele próprio. Mais além, além dos prédios, o céu estava límpido. Não aparentava ter chovido como tinha chovido na noite anterior.
Enquanto meus olhos investigavam detalhes da sala, ela me observava pacientemente. Quadros, mesa, poltrona, divã, tapete... De forma geral, o ambiente possuía uma neutralidade estranha. Um ou outro objeto de cor forte e sóbria dava vida ao lugar. Sentei.
- Então, o que te trouxe aqui?
- Bem... Não consigo dormir.
- Há quanto tempo não dorme?
- Não sei. Acho que perdi a conta. Na verdade, não me lembro de muita coisa hoje.
- Você sempre teve crises de insônia?
- Na infância... Mas os motivos eram outros.
- Motivos, você disse. Você os conhece?
- Mais ou menos. Não sei por que não dormia quando era criança.
- E, agora, você sabe?
- Sei.
Silêncio. Minhas mãos tremiam, meus olhos estavam cheios de lágrimas. Ela, gentilmente, arrastou uma caixa de lenços de papel pela mesa de centro de madeira que separava sua cadeira da minha, oferecendo-me, de certa forma, consolo.
- Tenho medo, muito medo.
- De quê?
- De pesadelos...
- Você costuma ter muitos pesadelos?
- Às vezes. Eles vêm e vão.
- São recorrentes?
- Alguns...
- Você quer me contar o que acontece nos seus pesadelos?
- Não sei. As palavras têm poder, sabe. Se eu contar, se eu lembrar...
Silêncio. Ela se ajeitou na poltrona, aproximando-se mais de mim ao inclinar-se para frente. Parecia curiosa.
- É bobagem, eu sei. São só sonhos, eu sei. Compreendo perfeitamente que não são reais. Mas, quando tenho pesadelos, o meu medo ultrapassa a dimensão da racionalidade, sabe? Apesar de entender que os sonhos não cabem na realidade, o medo que sinto é real.
- Desde quando você tem esses pesadelos?
- Desde os onze anos. Os iniciais eram mais recorrentes... Envolviam questões religiosas, eu diria que até questões espirituais.
- E os de hoje?
- Ainda tenho esses pesadelos que tinha na infância. Mas, agora, eles são mais violentos, mais absurdos...
- Absurdos?!
- São mais bobos, menos reais, mas muito violentos. E tudo me dá medo. Meu medo me leva a sonhar.
- Qual o seu maior medo?
- Difícil responder com certeza...
Tique-taque. Tique-taque. Tique-taque. Minhas mãos apertavam-se com força, inquietas. Ela as olhava. Me ofereceu água. Aceitei. Com o copo na mão, o nervosismo foi se dissipando. Continuei:
- Acho que de ficar só.
- O que tem de errado em ficar sozinha?
- Não quero passar o resto da vida sozinha. Às vezes, tenho visões... Me vejo sentada, escrevendo um livro. De vez em quando, faço um carinho em meu gato, meu único companheiro.
- Você imagina isso ou sonha?
- Acho que sonho de olhos abertos.
- E o que você pretende vindo aqui? Pretende parar de ter pesadelos?
- Quero parar de ter medo! Quero entender o que se passa comigo. Por que tenho medo agora? Por que dormir se tornou algo tão torturante?
- Você não consegue ou não quer dormir?
- Talvez não consiga porque não quero. Já pensei nisso. Não quero por que tenho medo?
- Medo de quê?
- De ser maculada com violência, de perder o espaço de racionalidade que delimitei, de ter mais medo quando acordar.
Tique-taque. Tique-taque. Tique-taque. Ela parecia inquieta. Olhou três vezes para o relógio. Parecia buscar cuidadosamente as palavras.
- Vá para casa. Durma. Tenha um pesadelo horrível. Não acorde, deixe que ele termine. Enfrente seu medo. Lembre de tudo. Anote o que lembrar... Traga suas anotações na próxima semana.
- Posso dormir com alguém?
- Durma sozinha. E volte para me contar como foi sua experiência.
- Tudo bem. Até semana que vem.
Ela também se despediu, levantando-se e abrindo a porta para mim. Assim que cheguei em casa, iniciei meu ritual de relaxamento para dormir. Banho quente, chocolate quente, um bom livro... Finalmente o sono chegou. Dormi como uma pedra. O pesadelo nunca mais voltou. Sonhei com o céu, um anjo me puxou. Não pude voltar para terapia... O sonho nunca mais acabou.
- Você imagina isso ou sonha?
- Acho que sonho de olhos abertos.
- E o que você pretende vindo aqui? Pretende parar de ter pesadelos?
- Quero parar de ter medo! Quero entender o que se passa comigo. Por que tenho medo agora? Por que dormir se tornou algo tão torturante?
- Você não consegue ou não quer dormir?
- Talvez não consiga porque não quero. Já pensei nisso. Não quero por que tenho medo?
- Medo de quê?
- De ser maculada com violência, de perder o espaço de racionalidade que delimitei, de ter mais medo quando acordar.
Tique-taque. Tique-taque. Tique-taque. Ela parecia inquieta. Olhou três vezes para o relógio. Parecia buscar cuidadosamente as palavras.
- Vá para casa. Durma. Tenha um pesadelo horrível. Não acorde, deixe que ele termine. Enfrente seu medo. Lembre de tudo. Anote o que lembrar... Traga suas anotações na próxima semana.
- Posso dormir com alguém?
- Durma sozinha. E volte para me contar como foi sua experiência.
- Tudo bem. Até semana que vem.
Ela também se despediu, levantando-se e abrindo a porta para mim. Assim que cheguei em casa, iniciei meu ritual de relaxamento para dormir. Banho quente, chocolate quente, um bom livro... Finalmente o sono chegou. Dormi como uma pedra. O pesadelo nunca mais voltou. Sonhei com o céu, um anjo me puxou. Não pude voltar para terapia... O sonho nunca mais acabou.
samedi 20 août 2011
Quem pintou minhas rosas?
- Mamãe, posso ficar com o gatinho? - perguntou Cecília enquanto apertava o coelhinho de pelúcia contra o rosto. Eu não precisava responder nem emitir um único som... Ela já corria pela casa puxando seu mais novo bichano pela coleira.
- Meu Deus, o coelhinho vai ficar todo sujo! Vai dar um trabalho para lavar...
A alegria de Cecília era contagiante. Expressões suaves haviam sido pintadas por Deus naquele rosto pequenino, cabelos pretos e lisinhos e sorriso luminoso. Às vezes acho que Cecília já nasceu voando, ilogicamente, com as asas da imaginação. Às vezes, chego a questionar minhas lembranças... Não me recordo de Cecília engatinhando, só a vejo correndo pela casa quando volto no tempo. E ela é uma menininha comumente incomum. Nunca enxergou, não com os olhos. Nunca conheceu as cores, sempre nomeou-as com nomes de frutas. Doce como amora, Cecília sempre tinha histórias para contar:
- Mamãe, tem uma fadinha no meu quarto, desarrumando minhas bonecas.
- Mamãe, a fadinha não me deixa dormir.
Mas o conto mais curioso aconteceu semana passada. A fadinha danada pintou todas as rosas do jardim. Todas as cores mesclaram roxo, todas flores cheiraram lis. Cecília chegou no quarto pela manhã, fazendo a queixa:
- Mamãe, quem trocou o sabor das rosas? Quem roubou meu pudim?
Três dias de castigo e a danada bateu as asas. Voou para longe, pela estrada e Cecília foi dormir. Logo, logo o bichano volta a comer cenoura e um ursinho começa a latir.
lundi 8 août 2011
O tempo é relativo:
Chove
Teu veneno ambarado;
Chove
Teu ardor tresloucado.
Cubro
O céu da tua boca.
Língua
Deslizas minha espinha.
Choro
Tuas lágrimas de crocodilo;
Choro
Teu corpo escondido.
Luto
O turvo dos meus olhos.
Retina
Debochas minha sina.
mardi 26 juillet 2011
Acalanto - Para C. G.
Seu Chico,
o senhor me desculpe
não sei cantarolar nem tocar
tampouco, Seu Chico,
compor canções de ninar.
Eu só gostaria,
Seu Chico,
de poder amamentar.
Seu Chico,
o senhor me perdoe
não posso parar nem continuar
tampouco, Seu Chico,
compor auroras de serenar.
Eu só gostaria,
Seu Chico,
de poder acalentar.
o senhor me desculpe
não sei cantarolar nem tocar
tampouco, Seu Chico,
compor canções de ninar.
Eu só gostaria,
Seu Chico,
de poder amamentar.
Seu Chico,
o senhor me perdoe
não posso parar nem continuar
tampouco, Seu Chico,
compor auroras de serenar.
Eu só gostaria,
Seu Chico,
de poder acalentar.
mercredi 6 juillet 2011
Memórias de uma guria viajnte VI: Infertilidade
-- Obrigada, Dra. Mas o que faço com este amor que trago aqui? -, perguntei batendo no peito - O que faço com a dor que turva meus olhos? O que faço, Dra... - os soluços e as lágrimas interrompiam meu desabafo, então respirei fundo e continuei: -- O que faço, agora, com esta tristeza que consome minha vida, que neutraliza minha felicidade?
No caminho de volta para casa, meus pensamentos voltaram no tempo. Eu era incapaz de evitar que as lágrimas caíssem de meus olhos. Lembrei-me do que as pessoas comumente diziam: "Deus sabe o que faz", "Um dia sua hora vai chegar", "Não fique triste. Tudo pode ser resolvido". Essas lembranças trouxeram aos meus lábios um sorriso amargo. Não deixei de acreditar em Deus, sabe, mas não consigo compreender seus critérios e suas preferências. Será, meu Deus, que não sou digna de ser mãe?
Um dia, um aluno me perguntou: "Por que você escolheu ser professora?". Eu respondi dizendo que não havia escolhido a profissão, que ser professora é a única profissão para qual tenho vocação. Depois de um tempo tentando engravidar, percebi que ser docente é ter muitos filhos para amar. Dizem que Deus escreve certo por linhas tortas... Continuo tentando rezar para que um dia as linhas se endireitem ou para que, ao menos, minha visão melhore.
lundi 13 juin 2011
Minha poesia
Minha poesia é caixa de vidro:
Guarda o deserto arenoso,
O lagarto metamórfico.
Ora vidro fumê,
Ora chumbo grosso;
Se me concentro,
verde-musgo.
Minha poesia é cidade sitiada:
Isola a doença contagiosa,
A violência pandêmica.
Ora beco sem saída,
Ora estreita avenida;
Se me asfalto,
cinza-morte.
Minha poesia é copo com água:
Afoga a sede desgraçada,
O calor insípido.
Ora meio cheio,
Ora meio vazio;
Se me completo,
marrom-lama.
Minha poesia nem é rasa!
De tão rala,
Não me rasga,
Não me fere.
Adoeço e não tenho febre.
Mata e sufoca e não envenena.
Corro, morro, mas não me sustenta.
Guarda o deserto arenoso,
O lagarto metamórfico.
Ora vidro fumê,
Ora chumbo grosso;
Se me concentro,
verde-musgo.
Minha poesia é cidade sitiada:
Isola a doença contagiosa,
A violência pandêmica.
Ora beco sem saída,
Ora estreita avenida;
Se me asfalto,
cinza-morte.
Minha poesia é copo com água:
Afoga a sede desgraçada,
O calor insípido.
Ora meio cheio,
Ora meio vazio;
Se me completo,
marrom-lama.
Minha poesia nem é rasa!
De tão rala,
Não me rasga,
Não me fere.
Adoeço e não tenho febre.
Mata e sufoca e não envenena.
Corro, morro, mas não me sustenta.
dimanche 12 juin 2011
Os nós de nós dois
A luz era vermelha e enchia o lugar com um cheiro doce e sensual. O quarto parecia ser o mesmo da última lembrança. Deitado onde estava, ele conseguia ter uma visão panorâmica do ambiente que os distanciava agora. Uma mesinha de granito no canto, paredes brancamente avermelhadas pela luz, uma cama grande que podia ser contemplada do teto, um quadro que exaltava a luxúria. As bocas desejosas do encontro que jamais aconteceria, separadas na imagem estática. As mãos seguravam os seios arredondados da mulher que nunca seria olhada nos olhos, consumida de costas para o expectador observar cada detalhe de seu corpo...
A porta do banheiro se abriu. Ele tentou disfarçar o nevorsismo incoerente. Ela também estava nervosa. Sempre parecia ser a última vez. E essa sensação conferia ao momento uma necessidade única de realizar todos os desejos de seus corpos. Ela se aproximou da cama, enquanto ele se levantava. Ele já estava despido. Ela tentava esconder as curvas expostas pela camisola de tecido transparente. Ele segurou suas mãos e, delicadamente, beijou seus decotes. Beijo por beijo, alcançou a sua boca úmida. Ele a deitou na cama, como um pai que vai ler uma história para a filha. Seus cabelos lisos e castanhos espalhavam-se pelo travesseiro branco. Ela podia olhá-lo nos olhos e confessar seu amor, mas de que serviria a eles? Antes de virá-la de costas, ele sussurrou em seu ouvido o quanto estava particularmente linda naquele momento e despiu-a da camisola com a habilidade de uma brisa fresca.
Mesmo naquela posição, ela podia acompanhar cada expressão do corpo dele pelo espelho. Ele estava de olhos fechados, mas seu corpo vislumbrava cada centímetro do dela, esgotando cada suavidade de pele com a ponta da língua. De vez em quando, ele precisava parar para respirar profundamente, como se o ar acabasse antes de chegar aos seus pulmões. Ele beijava cada detalhe do corpo dela, descobrindo todos os mistérios daquela mulher. O corpo dela reagia, como uma deusa adorada por um crente fanático. Quando sentiram que a paixão ia transbordar, encaixaram-se um no outro com a naturalidade de quem se visita regularmente. Alcançaram juntos o ápice daquela loucura.
Ela o amava e sempre o amaria. Naquele instante, ele a amou com certeza. Continuaram deitados e abraçados, aguardando o mundo exterior intervir no sonho compartilhado pelos dois. O telefone dele logo tocou, fazendo-a acordar bruscamente. Dessa vez, era ela que se via sozinha na cama. Olhando a sua volta, ela decidiu que merecia mais. Ele pareceu concordar, mas tinha que ir embora de qualquer forma. Apressadamente, ele se vestiu e recolocou a aliança no dedo da mão esquerda, rezando silenciosamente que ela não demorasse no banho. Ela sabia como funcionava, logo, vestiu-se rapidamente. Ele sempre descontraía o clima falando sobre coisas que ambos gostavam de conversar. Ela ria e ele a abraçava. Estranhamente, estariam ligados por um longo tempo. Mas nunca seriam mais do que eram naquela história. Era como viver num mundo paralelo conhecido apenas por eles. Quando o tempo acaba, não há mais o que fazer, além de ir para casa e esperar que ele queira desfrutá-la novamente, além de esperar que as páginas do livro acabem. Ela não conseguia chegar ao fim da leitura...
vendredi 3 juin 2011
Memórias de uma guria viajante V: Angústia de quem vive
Era humanamente desumano. E Ele parecia zombar de cada gota da angústia que, dolorosamente, inundava o copo daquela famíla. Não se podia dizer que era bem uma tempestade... Nem que era simplesmente uma longa estiagem. Até o dia estava ensolarado. Entretanto, alguns a chamavam Morte. Talvez o fim combine mais com a noite para que o dia traga alguma esperança, ou qualquer outro motivo para continuar vivendo, um desses motivos que encontramos para não morrer diariamente e aos poucos. Quem sabe, fosse apenas uma ironia do Destino? Mas a sátira continuava...
Eu via o verde céu. Estranho foi vê-lo arroxear-se com as horas infindáveis de um dia que teve quarenta e oito horas e duas noites interpostas. J. C. parecia distante no meio dos outros e intimamente próximo ao meu lado. Dessa vez, meus olhos não o procuravam. Meus medos e orações seguiam na direção dela. Tão firme, tão forte, tão prestativa... Ofereceu seus ombros a todos e esqueceu-se de sua própria dor. Não, guardou-a para si para chorar a perda no silêncio e no calor de seu quarto, para lamentar a morte sufocando os próprios gritos de desespero. Ela havia encarado a Morte mais uma vez e sobrevivido a ela novamente. A Morte era negra, mas não como a noite que possui estrelas, mas como o fim que não possui voltas. Comercializava almas como um ladrão. O funeral foi longo. O enterro foi emocionante. A dor será eterna. O homem não pode ser substituído. E não seria.
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