L'ennemi

Voilà que j'ai touché l'automne des idées
Baudelaire

mercredi 6 juillet 2011

Memórias de uma guria viajnte VI: Infertilidade

-- Obrigada, Dra. Mas o que faço com este amor que trago aqui? -, perguntei batendo no peito - O que faço com a dor que turva meus olhos? O que faço, Dra... - os soluços e as lágrimas interrompiam meu desabafo, então respirei fundo e continuei: -- O que faço, agora, com esta tristeza que consome minha vida, que neutraliza minha felicidade?

No caminho de volta para casa, meus pensamentos voltaram no tempo. Eu era incapaz de evitar que as lágrimas caíssem de meus olhos. Lembrei-me do que as pessoas comumente diziam: "Deus sabe o que faz", "Um dia sua hora vai chegar", "Não fique triste. Tudo pode ser resolvido".  Essas lembranças trouxeram aos meus lábios um sorriso amargo. Não deixei de acreditar em Deus, sabe, mas não consigo compreender seus critérios e suas preferências. Será, meu Deus, que não sou digna de ser mãe?

Um dia, um aluno me perguntou: "Por que você escolheu ser professora?". Eu respondi dizendo que não havia escolhido a profissão, que ser professora é a única profissão para qual tenho vocação. Depois de um tempo tentando engravidar, percebi que ser docente é ter muitos filhos para amar. Dizem que Deus escreve certo por linhas tortas... Continuo tentando rezar para que um dia as linhas se endireitem ou para que, ao menos, minha visão melhore.

lundi 13 juin 2011

Minha poesia

Minha poesia é caixa de vidro:
Guarda o deserto arenoso,
O lagarto metamórfico.
Ora vidro fumê,
Ora chumbo grosso;
Se me concentro,
verde-musgo.

Minha poesia é cidade sitiada:
Isola a doença contagiosa,
A violência pandêmica.
Ora beco sem saída,
Ora estreita avenida;
Se me asfalto,
cinza-morte.

Minha poesia é copo com água:
Afoga a sede desgraçada,
O calor insípido.
Ora meio cheio,
Ora meio vazio;
Se me completo,
marrom-lama.

Minha poesia nem é rasa!
De tão rala,
Não me rasga,
Não me fere.
Adoeço e não tenho febre.
Mata e sufoca e não envenena.
Corro, morro, mas não me sustenta.

dimanche 12 juin 2011

Os nós de nós dois

               A luz era vermelha e enchia o lugar com um cheiro doce e sensual. O quarto parecia ser o mesmo da última lembrança. Deitado onde estava, ele conseguia ter uma visão panorâmica do ambiente que os distanciava agora. Uma mesinha de granito no canto, paredes brancamente avermelhadas pela luz, uma cama grande que podia ser contemplada do teto, um quadro que exaltava a luxúria. As bocas desejosas do encontro que jamais aconteceria, separadas na imagem estática. As mãos seguravam os seios arredondados da mulher que nunca seria olhada nos olhos, consumida de costas para o expectador observar cada detalhe de seu corpo...
               A porta do banheiro se abriu. Ele tentou disfarçar o nevorsismo incoerente. Ela também estava nervosa. Sempre parecia ser a última vez. E essa sensação conferia ao momento uma necessidade única de realizar todos os desejos de seus corpos. Ela se aproximou da cama, enquanto ele se levantava. Ele já estava despido. Ela tentava esconder as curvas expostas pela camisola de tecido transparente. Ele segurou suas mãos e, delicadamente, beijou seus decotes. Beijo por beijo, alcançou a sua boca úmida. Ele a deitou na cama, como um pai que vai ler uma história para a filha. Seus cabelos lisos e castanhos espalhavam-se pelo travesseiro branco. Ela podia olhá-lo nos olhos e confessar seu amor, mas de que serviria a eles? Antes de virá-la de costas, ele sussurrou em seu ouvido o quanto estava particularmente linda naquele momento e despiu-a da camisola com a habilidade de uma brisa fresca. 
               Mesmo naquela posição, ela podia acompanhar cada expressão do corpo dele pelo espelho. Ele estava de olhos fechados, mas seu corpo vislumbrava cada centímetro do dela, esgotando cada suavidade de pele com a ponta da língua. De vez em quando, ele precisava parar para respirar profundamente, como se o ar acabasse antes de chegar aos seus pulmões. Ele beijava cada detalhe do corpo dela, descobrindo todos os mistérios daquela mulher. O corpo dela reagia, como uma deusa adorada por um crente fanático. Quando sentiram que a paixão ia transbordar, encaixaram-se um no outro com a naturalidade de quem se visita regularmente. Alcançaram juntos o ápice daquela loucura. 
               Ela o amava e sempre o amaria. Naquele instante, ele a amou com certeza. Continuaram deitados e abraçados, aguardando o mundo exterior intervir no sonho compartilhado pelos dois. O telefone dele logo tocou, fazendo-a acordar bruscamente. Dessa vez, era ela que se via sozinha na cama. Olhando a sua volta, ela decidiu que merecia mais. Ele pareceu concordar, mas tinha que ir embora de qualquer forma. Apressadamente, ele se vestiu e recolocou a aliança no dedo da mão esquerda, rezando silenciosamente que ela não demorasse no banho. Ela sabia como funcionava, logo, vestiu-se rapidamente. Ele sempre descontraía o clima falando sobre coisas que ambos gostavam de conversar. Ela ria e ele a abraçava. Estranhamente, estariam ligados por um longo tempo. Mas nunca seriam mais do que eram  naquela história. Era como viver num mundo paralelo conhecido apenas por eles. Quando o tempo acaba, não há mais o que fazer, além de ir para casa e esperar que ele queira desfrutá-la novamente, além de esperar que as páginas do livro acabem. Ela não conseguia chegar ao fim da leitura...

vendredi 3 juin 2011

Memórias de uma guria viajante V: Angústia de quem vive

Era humanamente desumano. E Ele parecia zombar de cada gota da angústia que, dolorosamente, inundava o copo daquela famíla. Não se podia dizer que era bem uma tempestade... Nem que era simplesmente uma longa estiagem. Até o dia estava ensolarado. Entretanto, alguns a chamavam Morte. Talvez o fim combine mais com a noite para que o dia traga alguma esperança, ou qualquer outro motivo para continuar vivendo, um desses motivos que encontramos para não morrer diariamente e aos poucos. Quem sabe, fosse apenas uma ironia do Destino?  Mas a sátira continuava...
Eu via o verde céu. Estranho foi vê-lo arroxear-se com as horas infindáveis de um dia que teve quarenta e oito horas e duas noites interpostas. J. C. parecia distante no meio dos outros e intimamente próximo ao meu lado. Dessa vez, meus olhos não o procuravam. Meus medos e orações seguiam na direção dela. Tão firme, tão forte, tão prestativa... Ofereceu seus ombros a todos e esqueceu-se de sua própria dor. Não, guardou-a para si para chorar a perda no silêncio e no calor de seu quarto, para lamentar a morte sufocando os próprios gritos de desespero. Ela havia encarado a Morte mais uma vez e sobrevivido a ela novamente. A Morte era negra, mas não como a noite que possui estrelas, mas como o fim que não possui voltas. Comercializava almas como um ladrão. O funeral foi longo. O enterro foi emocionante. A dor será eterna. O homem não pode ser substituído. E não seria.

dimanche 29 mai 2011

Redoma de Vidro

          Depois de algum tempo, abri a porta e entrei na sala. O lugar estava vazio, exceto pela minha presença. Escolhi o melhor ângulo. Sentei. Olhei para frente e lá pude vê-lo. Eu o olhava com admiração enquanto ele conduzia a conversa. A paixão com que falava me apaixonava também. Meus olhos estavam fixos nele. Seus olhos sorriam para mim.
          Alguém abriu a porta. Um simples gesto e a lembrança se desfez. Era um sinal? Ninguém entrou, ainda estava sozinha, exceto pelo amor que trazia em meu peito. Agora, tenho a tarefa de prosseguir com a conversa iniciada do lado de lá do Atlântico. No poema, Amor e Liberdade.
          Depois de algumas descobertas, tirei a máscara e me olhei no espelho. O lugar estava vazio, exceto pela presença dele. Não havia nenhum reflexo, não havia nenhum brilho, não havia nenhuma voz. Não havia sequer um fim. Havia um único corpo: casca inútil, casco oco. Um único corpo!
          Ninguém entrou, ainda estava sozinha, exceto pela dor que trazia em meu peito. Agora, a tarefa de prosseguir com a vida iniciada do lado de lá da Cidade de Vidro. No poema, Solidão e Fraternidade... Era um sinal?

dimanche 22 mai 2011

Alma de pescador

O barulho do vento soprando,
O silêncio do mar resistindo
À imagem da aurora, clareando
A vista de alguém que segue rindo...

O mastro que ao longe despontando
Um barco, um horizonte sumindo
No vaivém da água, tranquilizando
As Almas; um Pescador segue indo...

Altivo como se conhecesse
O próprio destino que é inconstante, 
Incerto, prepotente, distante...

Honrado com se percebesse
Triunfante diante da volta
Que é a vitória da oração que o escolta.

samedi 21 mai 2011

As coisas com o tempo - Homenagem a Fernando Fiúza

Com o tempo tudo vai embora...
Agora, antes ou depois?, quando vê, foi,
Quando vai, não acabou e chora...
Corrobora a distância entre dois.

Com o tempo tudo fica mudo...
Incrusto por silêncio e paciência,
Quando fala, não diz e burla...
Corrobora distância entre dois.

Com o tempo tudo cria asas...
Passa a vida ansiando liberdade,
Quando voa, prende-se, não volta...
Corrobora distância entre nós.

          Com o tempo nem tudo morre...
          Permanece o amor que o eterno constrói.

vendredi 20 mai 2011

Soneto da Ausência

De tudo que considero importante
Diante dos dias vividos por mim
Começo a perceber que num triste fim
Sonho, Amor nada pode ser constante

De tudo, sempre considerei infame,
Certeza única, eterna é a Solidão
Vazia, modelo de angústia do não,
Morte... medo de que nada se derrame

Sinto na alma uma dor, ausência profunda
De amor, de outra presença que me complete
Algo bem mais além do terror que afunda

Será que o amor pode ser tudo na vida?
Um sentimento que o coração desperte,
Um momento de propensa despedida...

lundi 4 avril 2011

Semper Eadem - Baudelaire (Trad. Amanda Gomes)

Sempre a mesma

"Donde viestes, dizei vós, essa tristeza estranha,
Total como o mar sobre a rocha negra e nu?"
-- Quando nosso coração fez uma vez sua colheita,
Viver é um mal. Esse é um segredo que todos conhecem,

Uma dor muito simples e nada misteriosa,
E, como vossa alegria, brilha para todos.
Portanto parei de procurar, ó bela curiosa!
E, mesmo que vossa voz seja doce, silenciei!

Silenciei, ignorante! alma sempre radiante!
Boca de riso infantil! Ainda mais que a Vida, 
A Morte frequentemente nos envolve por laços sutis.

Deixai, deixai meu coração inebriar-se com uma mentira,
Mergulhar dentro de vossos bons olhos como dentro de um sonho bom,
E dormir longo tempo à sombra de vossos cílios!


samedi 26 février 2011

Memórias de uma guria viajante III: Vale

A porta se fechou. Não consegui dar as costas e ir embora. Tinha ensaiado por tanto tempo aquele movimento simples. Senti vontade de girar a maçaneta e sair correndo pela sala. De repente, sentia-me como uma criancinha... Não abri a porta, mas a toquei. Com a mão espalmada, senti o calor que emanava daquela casa... Sentadas no chão do quarto, brincávamos de buraco, jogo preferido de minha mãe. Uma lembrança terna. Uma lágrima discreta. Então, é assim.

Eu precisava ir embora. Há quanto tempo o carro está me esperando? Não havia indício de impaciência em sua expressão. Ele sorria, mas seus olhos refletiam minha tristeza. Eu não estava pronta para ir. Talvez nunca estejamos prontos para seguir em frente. Abri a porta do carro e entrei. Em nenhum momento durante todo o percurso fui capaz de olhá-lo nos olhos. Ele respeitou meu silêncio. Agora, eu chorava compulsivamente, com todo o desespero que a rejeição causa, com toda a dor que o fim provoca. Tentei sufocar os soluços. Já não podia mais respirar. De vez em quando, ele segurava minha mão. Apesar de não saber como é, ele sofria. Todos sofríamos. Cada um com sua cota. Cada um em seu canto.  Quanto tempo leva para cicatrizar o corte de um cordão umbilical? Não sei. Mas, o laço que nos une, esse permanece. Então é assim... Sem despedidas nem voltas e fim.