L'ennemi

Voilà que j'ai touché l'automne des idées
Baudelaire

vendredi 20 mai 2011

Soneto da Ausência

De tudo que considero importante
Diante dos dias vividos por mim
Começo a perceber que num triste fim
Sonho, Amor nada pode ser constante

De tudo, sempre considerei infame,
Certeza única, eterna é a Solidão
Vazia, modelo de angústia do não,
Morte... medo de que nada se derrame

Sinto na alma uma dor, ausência profunda
De amor, de outra presença que me complete
Algo bem mais além do terror que afunda

Será que o amor pode ser tudo na vida?
Um sentimento que o coração desperte,
Um momento de propensa despedida...

lundi 4 avril 2011

Semper Eadem - Baudelaire (Trad. Amanda Gomes)

Sempre a mesma

"Donde viestes, dizei vós, essa tristeza estranha,
Total como o mar sobre a rocha negra e nu?"
-- Quando nosso coração fez uma vez sua colheita,
Viver é um mal. Esse é um segredo que todos conhecem,

Uma dor muito simples e nada misteriosa,
E, como vossa alegria, brilha para todos.
Portanto parei de procurar, ó bela curiosa!
E, mesmo que vossa voz seja doce, silenciei!

Silenciei, ignorante! alma sempre radiante!
Boca de riso infantil! Ainda mais que a Vida, 
A Morte frequentemente nos envolve por laços sutis.

Deixai, deixai meu coração inebriar-se com uma mentira,
Mergulhar dentro de vossos bons olhos como dentro de um sonho bom,
E dormir longo tempo à sombra de vossos cílios!


samedi 26 février 2011

Memórias de uma guria viajante III: Vale

A porta se fechou. Não consegui dar as costas e ir embora. Tinha ensaiado por tanto tempo aquele movimento simples. Senti vontade de girar a maçaneta e sair correndo pela sala. De repente, sentia-me como uma criancinha... Não abri a porta, mas a toquei. Com a mão espalmada, senti o calor que emanava daquela casa... Sentadas no chão do quarto, brincávamos de buraco, jogo preferido de minha mãe. Uma lembrança terna. Uma lágrima discreta. Então, é assim.

Eu precisava ir embora. Há quanto tempo o carro está me esperando? Não havia indício de impaciência em sua expressão. Ele sorria, mas seus olhos refletiam minha tristeza. Eu não estava pronta para ir. Talvez nunca estejamos prontos para seguir em frente. Abri a porta do carro e entrei. Em nenhum momento durante todo o percurso fui capaz de olhá-lo nos olhos. Ele respeitou meu silêncio. Agora, eu chorava compulsivamente, com todo o desespero que a rejeição causa, com toda a dor que o fim provoca. Tentei sufocar os soluços. Já não podia mais respirar. De vez em quando, ele segurava minha mão. Apesar de não saber como é, ele sofria. Todos sofríamos. Cada um com sua cota. Cada um em seu canto.  Quanto tempo leva para cicatrizar o corte de um cordão umbilical? Não sei. Mas, o laço que nos une, esse permanece. Então é assim... Sem despedidas nem voltas e fim.

vendredi 25 février 2011

Memórias de uma guria viajante II: Enigma

Noutros tempos, eu teria chorado. Teria fechado os olhos e me concentrado em minha força interior. A proximidade daquele homem, o cheiro de suor e a sujeira embaixo de suas unhas atingiam meu espírito como um soco no estômago. Nem sempre foi assim...

Não sei bem se era dia ou se era noite, mas me lembro daquele olhar desejoso. Não sei bem se era medo ou se era nojo, mas me lembro do gosto amargo daquela boca. Não sei bem se era perversidade ou se era doença, mas me lembro do suor frio daquelas mãos umedecendo o meu corpo. Lembro do meu reflexo molestado no espelho, da ingenuidade se diluindo nas lágrimas empoçadas em mãos que teimavam em tapar-me a vista. Não sei bem se eu era menina ou se eu era mulher. Nunca esquecerei as palavras proferidas com ardor por aquele velho homem de expressões suaves. Nem sempre foi assim...

Eu não olhava para nenhum lugar específico. Em silêncio, rezava para que o caminho se encurtasse, Como se isso fosse possível!. Lá fora, árvores e automóveis dividiam as ruas. Pessoas apressadas passavam por aqui, por aí. O ônibus lotado finalmente chegou ao meu destino. Desci. Em passos curtos, continuarei o percurso até em casa. Não sei bem se é perto ou se é longe, mas seguirei até descobrir. 

jeudi 24 février 2011

Memórias de uma guria viajante I

O calor nordestino não me irritava mais. A cidade estava particularmente iluminada naquela manhã. O ônibus passava pela praia da Jatiúca. Contemplar a luz do sol refletida na água sempre me inspirava. Sentir o cheiro do mar sempre me trazia lembranças. Ainda estava a caminho do trabalho, um longo caminho. Pressentia que o dia discorreria bem.
Numa festa, uma mulher encontra um homem, na verdade, reencontra um grande amor. Posso afirmar com propriedade que o "re", nesse caso, funciona como morfema de intensidade: dos batimentos cardíacos, do frio no estômago, do brilho nos olhos. A festa acontecia na Cidade Maravilhosa. Apesar do amor, temperamentos difíceis os separavam. Mas, uma rosa vermelha seca guardada com muito cuidado por ela, fez o tempo e os temperamentos serem deixados de lado, ao menos por hora. Consigo vislumbrar o desespero de suas mãos. Ela nunca havia sido tocada, em 1985, isso ainda significava muito. Um ano mais tarde, o casal se uniria. Ela pensou que fosse para sempre.
Em 1987, as pílulas contraceptivas deixaram de ser tomadas. Talvez um menino correndo pela casa preenchesse o vazio que ela sentia. Em maio do ano seguinte, nasci. Pais cariocas de sangue e de alma. Desde o nascimento fui respingada pelas águas das Cataratas do Iguaçu, abençoada pelo Cristo Redentor e levada e deixada pelo território brasileiro, como cinzas. Fecundada no Rio, nascida no Paraná e enterrada em Alagoas. Uma guria paranaense de alma carioca e de coração nordestino.
Minha mãe me disse que eu fui planejada. Meu pai só soube dos planos dela quando ela contou-o que estava grávida. O menino desejado nunca chegou. Mais duas meninas completaram nossa família. Contudo, o vazio que minha mãe sentia nunca foi preenchido. Na chegada do novo milênio, o para sempre chegou ao fim.
O ônibus estava praticamente vazio. As ruas ganhavam mais movimento a cada minuto. Essa era eu, essa era minha vida. Eu me sentia feliz onde estava agora.

mercredi 19 janvier 2011

Passatempo

Meus olhos pesavam. Pisquei uma, duas, três vezes. Tudo ainda estava embaçado. Olhei ao redor. A visão foi ficando mais nítida. A claridade era insuportável. Havia esquecido de fechar a cortina. Os raios solares espalhavam-se solenemente pelo quarto. Tentei me levantar. Minha cabeça doía demais. Minha boca desfrutava de um sabor amargo. Sentia-me envenenado. Voltei a fechar os olhos. Alguma coisa se mexeu na cama. Ah, não! Minhas pálpebras recusavam-se a me obedecer. Quando o fizeram, consegui distinguir algumas roupas femininas espalhadas pelo chão. Virei para o lado. Ela era linda, mesmo depois de ter amanhecido. Exalava um cheiro bom. Era dona de um rosto suave e de contornos que se destacavam no contraste com uma cintura fina. Não lembrava como a conheci. Nem como chegamos até meu apartamento. Nem qual era o seu nome. Por que eu sempre acordo primeiro que elas? Talvez para ficar contemplando-lhes a beleza natural e tentando adivinhar-lhes o nome. Quem será você? Na verdade, pouco importa. Deve chamar-se Amanda, assim como todas as outras. Acho melhor voltar a dormir. Quem sabe, quando eu me acordar novamente eu possa aproveitar-me de minha privacidade. Aconcheguei-me na cama. Ao lado da cabeceira, um criado-mudo vazio. Ainda sinto a falta dela. Nenhuma ausência me causou tanta dor. Posso sentir, agora, a plenitude da solidão. Às vezes esqueço que ela não está mais aqui. Desejo acordar e poder abraçá-la. Sonho com ela sorrindo serenamente, murmurando o meu nome. Sonho...
Uma música. De onde vem essa música? O celular tocava insistentemente. Alô. Alô! Quem fala? Não, não tem ninguém aqui com esse nome. Tudo bem. Tchau. A cama estaria vazia, se meu corpo inerte não estivesse ali . Eu posso sentir o tempo passando com seu arrastar de horas, com seu cumprir de dias. O relógio marca a início de mais uma noite. Como um vampiro, necessito de sangue fresco. Cabelos pretos, olhos claros, personalidade impactante, sensual e feminina, sem beirar o vulgar: uma vulgaridade profissional. Ar de Lolita para acreditar-me apaixonado e terminar traído, seja por mim mesmo, seja por minha paixão. Na aurora não a encontro. Parece maldição. Durmo com ela todas as noites e pela manhã todas elas se vão. Nenhuma ausência me causou tanta dor. Pedi que ela fosse embora. A liberdade me aprisionou. Voltei no tempo um dia desses. Voltei para o hoje. Voltei para o amanhã. Minha teimosa boca ainda grita por ela no silêncio. Ainda sonho com ela sorrindo serenamente, murmurando o meu nome. Sonho... Outro dia amanhece, mais um dia que acabou.

mercredi 5 janvier 2011

Se me ardo

Era uma noite de céu estrelado. O verão num tinha chegado, mas o calor já assolava os dias de primavera. As rachaduras do chão aparentavam mais e mais os abismos que, com profundidade, dividiam as terras. Um pouco assim me sinto agora. Consumida pelo fogo que me fere. Enfraquecida pela fome que me devora. Atormentada pelo espinho que me envenena.

Era uma noite de céu estrelado. E há muito a chuva não aliviava a sensação de desespero em minha cara. O vento que espalhava o piso de barro batido de casa não trazia nenhum sossego. Nenhum prenúncio de precipitação. Um pouco assim vou me sentir depois. Envenenada pelo espinho que me atormenta. Devorada pela fome que me enfraquece. Ferida pelo fogo que me consome.

Mais uma noite de céu estrelado... Rangendo rede é que a gente descansa, fumando palha é que a gente obedece, sertanejeando é que a gente se reconhece. E a chuva no sertão?, acende mais um cigarro e se sente comigo na rede que mais dia menos dia ela sacia quem tem sede.

vendredi 5 novembre 2010

Homem covarde

Crave um punhal em meu peito!
Crave um punhal em meu peito
E, depois, vá embora,
Homem covarde!
Daqueles que invade o espaço vazio,
Senta ao meu pé e reina,
Planta a semente, semeia;
Daqueles que passa como um rio.


Homem covarde! Homem covarde!
Rasgue com teu veneno minhas veias.
Morram em meus pensamentos tuas sombras.
Fechem os nossos caminhos nossas dores.

Consuma meus olhos em teu destino!
Consuma meus olhos em teu destino
E, depois vá se esconder,
Homem covarde!
Daqueles que abre o lacre corrompido,
Pisa em terreno abandonado,
Arranca suspiros do corpo dilacerado;
Daqueles que fica como um vício.

Homem covarde! Homem covarde!
Desvende o segredo desse abismo.
Atrás do medo não te enxergo.
Não suporto mais te ver aqui.

dimanche 26 septembre 2010

Le goût d'un mensonge

     
Enquanto o sol poente banhava a cidade com seu brilho dourado, o vento varria as folhas secas de um Outono caído. O sopro era gélido. Talvez o Inverno chegasse mais cedo neste ano. Mas, apesar de ser gélido e cortante, era só o Outono.
O cabelo teimava em tapar-lhe os olhos. A névoa teimava em embaçar-lhe a vista. Caminhava pelas ruas contemplando o cinza do concreto mesclar-se ao vermelho das frutas que lhe chamavam a atenção. As maçãs do rosto igualmente avermelhadas, essas pelo frio. As amoras da quitanda arroxeadas pelo amadurecimento, essas eram suas preferidas.
A boca nutria o desejo ansioso dos amantes. As mãos tornavam o pecado perfeitamente possível. O cheiro era inebriante. A textura provocante. Entreabertos, os lábios lembravam duas cerejas silvestres: róseos e macios. Os olhos tinham a cor do tabaco, intensamente escuros. Fracos, já não se mantinham abertos. Era tão sedutora, tão suavemente sensual e terna a mordida que todos os sentidos se concentraram no sabor indescritível daquela infrutescência carnosa. O mundo havia parado? Não ouvia mais o barulho do vento nem da ruidosa metrópole. Não importava. Mais nada importava. O gosto entorpecia silenciosamente todo o corpo. Um leve calor se espalhou junto com os espasmos de prazer.
O sensível delírio do paladar havia acabado. E, ao abrir os olhos, era tudo escuridão. Tentei gritar, mas a voz não saía. Tentei chorar mas a lágrima não corria. Nem crepúsculo, nem aurora. Era só a madrugada eterna e solitária, ostentando o obscuro de nós mesmos. Um passo e vislumbrei a a morte na sensação de cair num poço sem fim. Quando o corpo alcançou o chão, pude ouvir o som de meu próprio grito. Mas, apesar de ser duro e humilhante, era só o chão do meu quarto. Um pesadelo numa noite de sono atormentado pelo calor dos trópicos. Voltei à cama, deixando as gotículas de suor elevarem meu corpo nu às carícias d'un mensonge.

mercredi 1 septembre 2010

"Sobre a dor que nos une" - Só mais um conto...


Silêncio... Eu estava tão alegre naquele dia. Sentia uma leveza incomum e, talvez por isso, indescritível. Sentia mesmo que podia flutuar. Mas não o fiz. A sensação de conforto perpassava todo o meu corpo. Eu estava tão integrada ao lugar que não sentia meus membros. Só queria permanecer ali... Os olhos fechados. As pálpebras pesavam tanto e o sono entorpecia todo o meu ser.
Sussurros... Eu tentava me lembrar que lugar era aquele. Lugar desconhecido e tão aconchegante. Tinha ido ao escritório para pegar uns relatórios que precisavam ser analisados. Era sábado. Todos deviam estar com suas famílias, talvez numa casa de praia, afinal, o dia estava tão bonito; ou, quem sabe, numa casa nas montanhas: chocolate quente para os filhos, café para os concentrados, chá para os relaxados. Bem, eu só precisava pegar os relatórios e voltar para casa. Ainda era manhã e Mateus devia estar dormindo... Podíamos viajar. Quase nunca ficávamos juntos. Coloquei os relatórios na pasta, segui para o estacionamento. Só havia um carro: o meu. Entrei, abri as janelas para sentir o vento, liguei o CD player e, ao som de Chopin, dirigi tranquilamente pela cidade. Estava perto de casa quando parei no sinal vermelho. Verde: segui.
Dor... Minha cabeça pesava, minha boca amargava. Sentia uma dor aguda. Os espasmos quebraram todo o meu raciocínio e me deslocaram de mim mesma. Quando cheguei a casa, Mateus tomava o café da manhã que Maria havia preparado para ele. Foi incrivelmente saboroso vê-lo feliz com a proposta da viagem. Só precisamos de duas horas para organizar tudo. No banco de trás do carro, ele planejava o final de semana elencando todas as suas vontades. Mateus parecia com o pai: olhos cor de tabaco intensamente vivos, procurava em tudo a essência da vida, era simples e forte e lindo. Era tão difícil vê-lo e não lembrar, vê-lo e não sentir essa aguda dor no peito. Mais um sinal. Verde: segui.
– Acorde! Vamos, garota, acorde! – uma voz masculina gritava, insistia. Eu sentia tanta dor. Todo o meu corpo reagia. Abri os olhos. Estava tão claro. O sol incomodava demais. Não dava para entender o que toda aquela gente falava. Olhei ao redor, tentando digerir a cena. Carros de polícia, ambulâncias... Uma multidão nos cercava. E deitado no chão, frágil como eu nunca havia visto, pequenino e imóvel, estava o meu filho sobre uma poça de sangue.
– Tia, falta muito para a gente chegar? – havia ansiedade em sua voz.
– Não, meu amor, só falta um pouquinho. Por quê? Você quer alguma coisa?
Eu o olhava pelo espelho do retrovisor. Dava para perceber que ele queria dizer algo. Suas feições haviam mudado, entristeceram-se. Então compreendi o que ele tentava dizer...
– Você quer ver o papai e a mamãe antes de irmos à praia?
– Quero sim. Você se importa?
– Claro que não. Também sinto a falta deles.
– E a do Miguel também, né?
– É... Sinto muito a falta do Miguel.
Não era só o amor que me unia a Mateus. A dor da perda era um elo de identificação muda e natural entre nós. Mateus era filho da minha única irmã com um homem incrível. Ela havia morrido no parto. Sempre acreditei que o pai de Mateus também morreu naquele fatídico dia. Depois da morte da esposa, Pedro começou a definhar. O alcoolismo acabou com a sua vida... E com a de meu filho. Num mesmo acidente perdemos quase toda nossa família. Hoje, Mateus e eu tentamos superar um dia após o outro. E quando achamos que não temos mais nada, ainda temos o silêncio para partilhar. Sempre teremos um ao outro.
– Pronto para ir à praia?
– É, estou.
Todos foram enterrados no mesmo cemitério. Túmulos lado a lado para experimentarmos todo o conflito a ser sentido para o resto de nossas vidas.
– Tia, podemos tomar sorvete antes de continuarmos a viagem?
– Hum... Boa ideia! Está quente mesmo, um sorvete vai ser bom.
Verde: seguimos, mesmo com todos os sinais.